Book of Mutations por HERR GEISHA & THE BOOBS

Este álbum é um tema só, pelo que deve ser ouvido seguido. E este post é um agradecimento por tudo o que este trabalho me suscitou de imagens e sentimentos. Merci Herr Gueisha & The Boobs,
PPR

Enviem-me os vossos sinais!

Não é cropofilia, não são esses sinais, são estes:

Há um massacre invisível a decorrer

Todos os dias há pessoas que perdem a casa, o emprego, que usam da imaginação para colocar um prato de comida à frente dos filhos. Alguém emigra enquanto outrem pondera “fechar a loja”.

Há uma guerra invisível contra ser português como se nos fosse exigido uma conduta, uma maneira de ser e de estar que nos é estranha e injusta. Como se tivéssemos a ser castigados, gerando um sentimento de sofrimento brutal devido às mentiras que postas em decreto, não vão ao encontro das necessidades económicas e sociais da tua vida.
Apesar da insistência de quem beneficia do uso dos poderes públicos contra o estado, o povo e as instituições do 25 de Abril mantêm-se, provando que é extremamente difícil matar um povo.

E é muito mais que uma guerra política simples, é uma guerra ideológica fracturante, muito perto do que se passou com os regimes totalitários mais retrógrados e bouçais de que a Europa tem memória, particularmente em Portugal e na Alemanha, grotescos siameses políticos no que toca à direita.

É uma guerra que cria feridos e mortos, tortura e marginaliza, é uma longa metragem da pior das fantasias lusitanas do cavaquismo primário.
A aparência e o “superficialismo” atroz servem para atapetar e condicionar o pensamento livre e o espírito crítico.

“Não te chateies com a política”, “não penses mais nisso”, “vais ver que se enganaram no teu recibo de ordenado”, “deixa isso”, “isso envelhece”, t.i.n.a., t.i.n.a., t.i.n.a., t.i.n.a., t.i.n.a…. there is no alternative… o sol é azul, o mar é amarelo, a tua cara é verde, um cão tem asas…

Tem-se revelado difícil manter o contacto social naqueles momentos em que te apetecia “fechar a loja”, em que te apetece esconder da tua própria miséria pessoal, caindo que nem um pato naquilo que te corrompe a naturalidade e a criatividade.
Em que uma pessoa não consegue comunicar de perplexidade e tristeza, auto-isolamento e auto-punição, a miséria mais miserável da austeridade, arma de destruição massiva dos esbirros da sua cretina e triste implementação.
Em que uma pessoa assiste de mãos atadas ao roubo da subsistência, ao roubo da dignidade.

Sei que há sinais de mudança, o rei de tanto andar nu está doente de broncopneumonia, vai morrer.
Há um sentimento público de que esta realidade virtual não é sustentável, o país quer-se libertar, há alternativa e chama-se política.

Dentro de tudo isto, hoje salvei uma amizade e estou feliz de uma forma incalculável.

Quem ouve quer ouvir…

Não me sinto o melhor pai do mundo nem acho que sou especial, não me gabo das minhas façanhas nem justifico os meus defeitos com desculpas, sonsice, inverdades ou mesmo mentiras, enganando e usando de detestável hipocrisia, tratando as pessoas como estúpidas em vez de as tratar como crianças.
Ontem confessaram-me que estou triste, cabisbaixo e calado, e sentiram saudades do pai alegre, maluco, brincalhão, insólito e irreverente, tudo adjectivos retirados das memórias que referiram.
Contei-lhes que é verdade e têm razão, é uma fase que alguns adultos criaram e deram o nome de “crise”, implicando um país inteiro com todas as crianças, idosos, mães e pais lá dentro.
E nos últimos meses o pai deixou-se ir abaixo e ficou desinspirado, porque não vamos de férias para bem longe, porque não temos podido ir a museus, praia, serviço educativo nas férias pequenas, parques, etc, mas isto passaria.
Senti-me meio Benigni em “A vida é bela” já depois de fuzilado pelos alemães.

E perguntam agora mas que raio terá isto a ver com o Arquitectura do Ruído, é um programa piegas?

Sim, num mundo austeritário pareço acusar o desgaste, porque em primeiro lugar sou um radialista promovendo unicamente música, artistas e organizações que me entusiasmam, os outros  99% são Rádio Zero nos meios, amizade, liberdade e apoio.
Em segundo lugar pelo que passo a partilhar.

Ligando à metáfora anterior, vi nos meus putos o reflexo do meu estado de espírito, vi-me contaminado por desesperança com o aparelho criativo bloqueado.

Pareço ter-me esquecido de mim por algum tempo encarneiradamente estarrecido face ao panorama económico até 2016: nada recomendável, estou tramado e comigo está um país maioritariamente a pensar e a sentir o mesmo. Excluo os selvagens que acham esta política natural, os corruptos que acham que é mesmo assim, os fascinados porque nunca estiveram tão ricos, os ingénuos que acreditam que andaram a viver acima das suas possibilidades e os escravos felizes.
Senti-me – sem reparar – isolado, bloqueado, descrente, remoendo a coisa…

No último ensaio do projecto que tenho com Carla M. – Clit Cortex – denotaram tristeza no meu tocar, especialmente no concerto que demos na Garagem da Graça na mesma noite de Tiago Sousa no TMM, onde teria ido alucinar emoções se não tivesse já Slammers & Storytellers marcado há um mês.

Ora se a música que descubro e me dão a conhecer está cada vez melhor, não posso deixar de acompanhar concertos, ir a festas prometedoras, sítios exóticos, casas e manifestações artísticas peculiares, não posso deixar-me levar por este estado de espírito.
Lisboa fervilha e a cidade inteira anseia pelo chuto borda fora deste governo e respectivas políticas para fervilhar o quádruplo.

Concluo com duas ideias:

Viver num sistema político de mentira generalizada centrada no ilógico como verdade absoluta pode gerar irracionalidade auto-justificada, arbitrariedade e violência (contra si, outro ou outros), constata-se isso no bullying estatal do governo justificado por um vácuo bem português, um vácuo “da silva”.

A resposta não é hibernar mentalmente durante esta fantasia lusitana de democracia suspensa e esmorecer mas sim intensificar o que nos faz ser.
Dar sentido à alternativa no que nos é mais natural já é revolução, é Abril!

Retomo os directos e prossigo!
PPR