FULL BLAST quer dizer mesmo dizer FULL BLAST – 15 OUT ZDB

Não é todos os dias que se tem contacto com a criatividade pura. As possibilidades sonoras do que presenciei na ZDB, no concerto de Peter Brötzmann, Marino Pliakas e Michael Wertmüller, nada têm que ver com um registo gravado.
Tenho a referir que o som estava bom e cerca de metade da sala estava compacta, composta por uma assistência com pessoas de diversas idades, numa ZDB aniversariante – neste mês a Zé dos Bois celebra 18 anos de uma actividade importante e reconhecida.
Admito que me interessava deveras ter contacto com Brötzmann, portador de uma cultura musical bem para além do Jazz – colaborou com Zorn, Charlie Parker, Bill Laswell, entre muitos nomes de uma lista extensa, ao longo de quase cinquenta anos de carreira de músico – mas também conhecido por outras actividades, nomeadamente de pintura e design.
É um homem feito em transições culturais, alemão, criado no pós-guerra, vive mais tarde a queda do muro e a reunificação, uma testemunha com a particularidade de falar claro e atacar directamente os temas, como aconteceu na curta entrevista que concedeu à Arquitectura do Ruído, antes do concerto.
Em palco rapidamente o saxofonista se diluiu nos Full Blast. O que ouvi só acontece entre três músicos que se conhecem bem e se entendem uns aos outros de forma clara. Foram momentos de pura entrada dos Full Blast no cérebro da assistência, que acusou especialmente no terceiro momento em que a bateria estava desperta e à solta nas mãos de Michael Wertmüller, o baixo eléctrico de Marino Pliakas tecia sonoridades em delírio e o clarinete de Brötzmann ganhava vida própria, parecia que este o tentava apanhar com a boca, para com isso subir ainda mais a parada.
Se no momento inicial se levou um enxerto de porrada que colocou a assistência à vontade e aquecida, logo aí se percebeu o poder do que se seguiria. Momentos de evasão, de viagem em que já era o público a dialogar com os Full Blast, gritando, exigindo mais tarde o regresso destes, agradecidos, ao palco.
Houve um momento altamente impressionante, em que Brötzmann nos conduz de forma decrescente até ao momento inicial da saída de som do clarinete, de uma nuvem de som se fez uma pequena e simples melodia que se desvanece, brutal, especialmente depois da sessão de pancadaria que Wertmüller infligira à bateria.
Passem os termos a que me refiro à actuação dos Full Blast, somente pelo resultado sonoro forte, porque nenhum instrumento se partiu nem ninguém foi parar ao hospital, antes pelo contrário, foi terapêutico.

SITE de Peter Brotzmann:
http://www.peterbroetzmann.com/