Há um massacre invisível a decorrer

Todos os dias há pessoas que perdem a casa, o emprego, que usam da imaginação para colocar um prato de comida à frente dos filhos. Alguém emigra enquanto outrem pondera “fechar a loja”.

Há uma guerra invisível contra ser português como se nos fosse exigido uma conduta, uma maneira de ser e de estar que nos é estranha e injusta. Como se tivéssemos a ser castigados, gerando um sentimento de sofrimento brutal devido às mentiras que postas em decreto, não vão ao encontro das necessidades económicas e sociais da tua vida.
Apesar da insistência de quem beneficia do uso dos poderes públicos contra o estado, o povo e as instituições do 25 de Abril mantêm-se, provando que é extremamente difícil matar um povo.

E é muito mais que uma guerra política simples, é uma guerra ideológica fracturante, muito perto do que se passou com os regimes totalitários mais retrógrados e bouçais de que a Europa tem memória, particularmente em Portugal e na Alemanha, grotescos siameses políticos no que toca à direita.

É uma guerra que cria feridos e mortos, tortura e marginaliza, é uma longa metragem da pior das fantasias lusitanas do cavaquismo primário.
A aparência e o “superficialismo” atroz servem para atapetar e condicionar o pensamento livre e o espírito crítico.

“Não te chateies com a política”, “não penses mais nisso”, “vais ver que se enganaram no teu recibo de ordenado”, “deixa isso”, “isso envelhece”, t.i.n.a., t.i.n.a., t.i.n.a., t.i.n.a., t.i.n.a…. there is no alternative… o sol é azul, o mar é amarelo, a tua cara é verde, um cão tem asas…

Tem-se revelado difícil manter o contacto social naqueles momentos em que te apetecia “fechar a loja”, em que te apetece esconder da tua própria miséria pessoal, caindo que nem um pato naquilo que te corrompe a naturalidade e a criatividade.
Em que uma pessoa não consegue comunicar de perplexidade e tristeza, auto-isolamento e auto-punição, a miséria mais miserável da austeridade, arma de destruição massiva dos esbirros da sua cretina e triste implementação.
Em que uma pessoa assiste de mãos atadas ao roubo da subsistência, ao roubo da dignidade.

Sei que há sinais de mudança, o rei de tanto andar nu está doente de broncopneumonia, vai morrer.
Há um sentimento público de que esta realidade virtual não é sustentável, o país quer-se libertar, há alternativa e chama-se política.

Dentro de tudo isto, hoje salvei uma amizade e estou feliz de uma forma incalculável.